“Estamos perante uma arrebatadora escrita sem concessões e sem lugares-comuns e por isso genuíno lugar — comunal — onde o fragmentário se lê como experiência complexa. Grafia desarmante, linguística — senão meta-linguística — em força, fogo e ferida da percepção. Não lia nada assim CONTEMPORÂNEO há décadas. Intransigente, e com ancoragem no real histórico e ao mesmo tempo num idealizar que sublima o intraduzível e o coro-caos de discursos e vozes vivificadas, arrancadas — com a raiz! — à obscuridade. O íntimo expandido, a tapeçaria de fenómenos cujo nexo exige leitura contemplativa. É um livro muito especial e não o posso dizer de outra maneira.”

Mário da Câmara Caeiro.
Dez 2025




A luz para esta estória puxou-me à frente de uma montra onde
estava uma escultura Kongo em pedra.
A memória tinha-me tido perto de esculturas assim, mas ali,
a milhares de quilómetros do meu chão, aquela mãe me brilhou
encarecidamente.

Apareceu um livro que apela à leitura desacelerada e ao
confronto com os desafios e enigmas do movimento criativo,
e que questiona o aprisionamento dos patrimónios e heranças.
Tem a ilustração prodigiosa da Neusa Trovoada.
A versão em kikongo foi construída com Miguel Sanches André,
e a versão em francês com Nelly Marmorat.
Quis que o saboroso Lingala viesse brincar também.


Para os vossos olhos. Nu mona muna meso meno.
À vos yeux.

Branca






“(...) Houve luta e sangue e morte e luto para que 75 chegasse com todos os lugares de sombra e saciedade. Na Guiné à sombra do Poilão já tinha havido festa. Não é de 75 a casa deles, mas anterior como a casa dos nossos antepassados, os que vêm antes e preparam os caminhos. Cabo verde, S. Tomé. Moçambique tiveram casa e bandeira em 75 e mesmo para Angola, a mais difícil das casas havia uma Vitória Certa, em Novembro mês da chuva e do calor imenso.

Este livro é uma casa cheia de portas para todas as outras casas para as línguas que se falam e as outras que se vão descobrindo. Eram jovens muitos jovens, os que esperavam a Dipanda e há tantas palavras para dizer nessa demanda da utopia onde todos inscrevemos o rosto e nos perdemos. Aqui há palavras novas que se cruzam com outras mais velhas para dizer sofrimento. Aqui se misturam as vozes: versos, cantos, música, formas de estar.

O colar dos dias uniu as incertezas em muitas vozes diferentes. Entre a ficção e a memória rememoram-se tempos onde a vida começava e todas as portas estavam abertas “na liberdade daqueles lugares”.

Ana Paula Tavares.
Nov 2025





2025
ed. ELIVULU

Mais do que um romance histórico, Casa 75 é um retrato sensível de um grupo privilegiado de intelectuais que viveu, na diáspora, as independências e o fim do império colonial português num tempo em que muito parecia possível — e muito estava em risco.

Na continuidade das suas outras obras há uma deslocação de certas tradições clássicas do exílio e da diáspora Branca Clara das Neves escreve a criação contínua de mundos relacionais após a fragmentação histórica